quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Macapá, 17 de fevereiro.Eram quase quatro da manhã. Eu estava sem sono e com um compromisso que me martelava: meu amigo Alan Cunha, professor/pesquisador, músico autodidata de singularidade e sensibilidade musicais, em uma daqueles encontros que a gente faz para além de reunir os amigos, ele tocou a harmonia e solfejou uma melodia de uma música que havia iniciado aquela manhã. Cheguei em casa e esbocei algo que só nesta madrugada acabei. Ainda não se tem um nome. Aguardem.



Entrenó meu passado se espraia
Entre vírgulas adjetivos e fatos
Com um toque de veneno e faias
Virgulinos, capangas e macacos
Agora olho para você
Enquanto lhe digo e calo
Com meus olhos de seiva
E os seus de João de Barro
Entre eles lágrimas e estrelas
O riso rente ao suspense se cola
Armorial prata de lua festejas
De chão e de pó e mão na viola
Agora olho para nós
Enquanto lhe toco e ardo
Com mãos de lavrador
E coração bardo
É este o limiar da eternidade
Desejar o para sempre, se ver nele
Se for tocado pelos germes da idade
Ensaiar um drama cordial na pele
Agora olho para mim
Enquanto me assomo e sigo
Com meu corpo de terra
Nos seus olhos de infinito

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

NUMA TARDE DE FEVEREIRO (Roni Moraes)












Aquela tarde se desmanchava em pingos de chuva. Mangas maduras despencavam de alturas variadas e eu, deitado em uma rede num quarto pequeno e frio com a janela aberta para esse dormente momento, ouvia o ruído surdo das frutas caindo. Os periquitos haviam dado uma devassa geral passados alguns dias atrás, mas cresceram novas mangas e elas amadureciam, ficavam apetitosas para as bocas que as esperavam ou mesmo para apodrecerem nas calçadas.
O barulho dos pneus na água que se formava nas ruas estava para os meus ouvidos como vários reco recos tocados a esmo dentro de uma pia cheia de água, sem ritmo, sem pulsação, mas que contínuo e irrenitente. O cheiro do ar estava impregnado de musgo, rosas, goiabas se decompondo e samambaias pois o meu quarto ficava nos fundo do hotel Santo Antonio na Coriolano Jucá e beirava um muro baixo de jardim cheio de xaxins de samambaias e pés de goiabas. Ao lado do hotel se materializava um edifício residencial que os trabalhadores ainda estavam nas bases de sustentação da obra.  Brevemente iria suplantar em tamanho como em qualidade minha humilde hospedagem.
Tive um ímpeto de pular da rede. Senti na pele um calafrio pela nuca que me fez tirar o samba canção para meter a cara na rua. Ela, a rua, me pareceu naquele instante áspera com suas folhas e mangas no pé das árvores, empapada pela lama acumulada nas marginais, mas embriagadamente envolvida em uma chuva fina que, fui desmedidamente, apertando os passos para o meu automóvel. Haviam também alguns jambos mergulhados em poças de água e outros amontoados na calçada.
Dentro dele, retirei do bolso da bermuda caqui um lenço xadrez e enxuguei os pingos d’água do rosto e dos braços. Liguei o ar e fiquei um pouco pensando em como chegar lá e porque de tanto desespero para chegar a um determinado lugar, não lembrava nada assim ocorrido comigo antes.
Mas fui. Pequei a Tiradentes e dobrei na Presidente Vargas. Fui direto e dobrei na Marcelo Cândia e liguei o pisca sinalizando para a esquerda. Enquanto procurava meu pen drive no porta luvas atravessei a Mendonça Furtado, a Almirante Barroso, a Cora de Carvalho, a Padre Júlio, depois a Mendonça Júnior e dobrei para a direita na Salgado Filho. Com o pen drive na mão coloquei-o na entrada USB do som e, naquele finalzinho de tarde nublada, vi desenhar-se contra um céu cor de chumbo e ventilado o edifício Turmalina se sobressaindo as casas do bairro. Saltei do carro e sai disparado para a recepção e, pelo interfone falei com o porteiro. Ele não estava entendendo o meu desespero e, por isso, me refiz voltando a explicar-lhe com calma, apesar da chuvinha fina que caia: “sou irmão da senhora do apartamento 101, meu nome é Otávio Solto Neto e...” O portão abriu. Entrei correndo e acenei com a cabeça para o senhor na portaria como que a agradecê-lo e ele me retribuiu com um olhar que deduzi  ser familiar, apesar da minha pressa. Subi as escadas pulando de dois em dois degraus. Esbarrei com um casal que vinha conversando animadamente e se assustaram com minha passagem. Cheguei ao quarto andar e me deparei com a porta de entrada do apartamento da minha Irmã. Bati na porta. Nenhum sinal. Bati novamente. Nada. Era obvio que, se não estivesse ninguém naquele apartamento ao menos o seu cachorrinho alardearia o barulho na porta. Depois de mais de cinco minutos alguém abriu sonambulante depois de olhar pelo olho mágico. “Ela viajou, falou baixo entre bocejos um rapaz de mais ou menos vinte e cinco anos. Acabei de deixá-la no aeroporto de Macapá, o vôo sai as dezoito. Deixou isto”. Estendeu a mão e me entregou um envelope de papel pardo grampeado. Peguei com as mãos trêmulas e me despedi em silêncio.
Na rua coloquei o envelope debaixo da camisa para que aquela tarde misteriosa não o molhasse e entrei no carro. Sentei. Lá pude abrir com calma. Olhei para o prédio no mesmo ângulo de visão de antes, liguei o som para ouvir no mais alto volume. Foi logo tocando um clássico de Johnny Rivers Do You Wanna Dance quando me machuquei ao retirar os grampos com os dedos. O sangue borrou levemente a carta que me pus a ler avidamente: “Olá querido Otávio, sem família além de você aqui nesta cidade meus dias foram restritos ao trabalho na Fazenda e a minha religião que abracei. Eu tinha um casamento de vinte anos e me vejo agora sem ele e desesperada. Daquela conversa que tivemos guardo comigo as tuas palavras, mas de nada importa agora, porque no final das contas a gente acaba fazendo o que nosso coração manda mesmo. Por isso estou partindo para Amsterdã atrás dele e tentarei retomar tudo. Sei da sua opinião sobre isso, que eu deixasse as coisas como estão e que de nada adiantaria correr atrás de algo que já não temos. Sinto que já o perdi, sim, mas devo tentar. Até breve”.
Olhei novamente para o prédio, não com o mesmo olhar de minutos atrás no sobressalto, mas de cansaço tangível, porém frívolo. Havia entendido o motivo que me jogou da rede e isso me pesou nos ombros. Deixei o pisca alerta e o limpador ligado quando sai no frenesi e eles continuavam a funcionar como que sincronizados. O ar que estava abafado e tenso antes dava lugar a uma atmosfera surda e amordaçada, apenas o som de Johnny Rivers dizia:
Do you wanna dance and hold my hand?
Tell me that I’m your man
Baby, do you wanna dance?

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

NOITE BRANCA (Roni Moraes)

Essa música me lembra um tempo que anda comigo. São os acordes de um perfume, nuances de marés, lua minguante e Paulo Leminski...


DEPOIS DAQUELA NOITE BRANCA
BRANDA...
FUI BRINCAR
EU E MINHA LÍNGUA
COM A TECIDEZ DE OUTRAS PALAVRAS
AGORA SÃO REDITAS
PRA VOCÊ SENTI-LAS


ESTAVAM MUDAS
PORQUE NÃO DE MUDANÇA
AGORA MIGRAM
PARA O INSTANTE DA FALA
EM TODA A EXTENSÃO DE MINHA LÍNGUA


POR QUE SEI...
QUE FORAM GUARDADAS PRA LHE DAR

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Essa é uma música que fiz com Inácio Sena, parceiro também de outras canções. Deverá entrar em meu segundo disco por título Ukaoema.


O olhar
Deve procurar
Além da coisa olhada

Habitar
Entre a retina
E a não suposta
Resposta da mente

O que se sente
Deve ultrapassar o foco
Num desejo louco
De substanciar-se

domingo, 6 de fevereiro de 2011

MEIO DIA

Então, era a primeira vez que a vi triste e certamente a última. Presa àquela avenida, diversas outras pessoas paravam e a olhavam, se sentindo como ela igualmente presas naquela imensa tristeza. Se entreolhavam buscando um motivo para seu sofrimento e um deles, de mochila nas costas começou a redigir com os lábios uma prece. Outro se preocupava com a possibilidade de assalto. Uma senhora de meia idade, tirava de dentro de sua bolsa uma câmera fotográfica para registrar aqueles sôfregos últimos momentos, aquele terrível sibilar arfante da morte. Os carros, no trânsito contínuo daquela avenida foram obrigados a reduzir a marcha e, alguns mais curiosos, saltavam e endossavam o caldo humano despejado em menos de vinte minutos naquela esquina, onde o semáforo não mais fazia sentido: Avenida Presidente Vargas com a General Rondom.
O fluxo parou. Moto taxistas, garis, enfermeiras, guardas municipais e até o secretário de Meio Ambiente que estava indo para o trabalho parou com o badalar dos sinos da catedral que, tocam ao meio dia. Todos choravam e os sinos, por mais de duas horas, tocaram incessantemente, como que a conclamar a população para um último adeus.
A cidade parou. Por que aquelas pessoas se lastimavam a desdita injustificada? Pensei em retaliá-los com sofrimento igual ao que se aproximava a cada momento. Foi nesse instante que o monótono badalar  foi adentrando o peito daquela gente de tal maneira que começou a chover um choro contínuo. Todos choravam. Molhou o asfalto. Tentaram sem sucesso querer reanimá-la: aquela árvore balzaquiana, uma mangueira outrora bonita, vistosa, passa agora a ter suas raízes, tronco, folhas, flores e frutos igualmente condenados ao lento e indiferente braço da morte.
Por isso a cidade chorava? 

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

COMUM E RARO

  Para a Ana Clara e o André


Uma ave comum e rara
Pousou no meu ombro
Em minha cara o assombro
Quando seu canto ouvi

Sua melodia clara
Voava de seu peito
E eu agora refeito
Pude apreciar e sentir

Seu voo é para o azul
O seu caminho é o ar
O céu aquece o caminho
De quem quer chegar

A ela ofereço
Tudo o que conheço
Mas essa ave encarnada
É o amor que mereço festejar


EU QUERO DIZER QUE TE AMO

                                                                                                                    (Roni Moraes) 
quero descobrir quando surgistes em mim.
asas flamejantes insuflando tudo ao redor
e esse grito de pássaro pasto atado a boca

perguntei para mim, como assim?
e cheguei a conclusão, pensando nela:
 que há tempos a espero
em trinta e cinco primaveras

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

DÁDIVA

meu desejo é reino liquido
minha boca saliva teu nome
poros poços são
molham nossos corpos

na música orgânica das águas
tudo é ser e ser não se basta:
amar é a dádiva da vida

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

SEM TÍTULO

Fiz ontem essa música em memória a Edione, pastor evangélico e ainda não tem título. Através da sua alegria, ele interagia com seus amigos, cônjuge, parentes e discípulos de maneira natural, com a mesma sobriedade que encarava os desafios e problemas do seu dia dia. E o que não vai morrer jamais, enquanto viver quem o conheceu, é a lembrança de sua alegria.

EU NÃO VOU TE DIZER ADEUS
NÃO POSSO...
NÃO POSSO...
POR QUE O MELHOR DE TI FICOU
EM QUEM SORRIU
COM A SUA ALEGRIA

QUANDO, AS VEZES,
NEM DÁ PRA SORRIR
EU LEMBRO DE TI
TIRANDO, COM UM SORRISO ABERTO,
LEITE DE PEDRAS
JAMAIS ESQUECEREI
DE SUA ALEGRIA

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

POEMAS

(Roni Moraes)
GRAFIA

Uma folha seca
beija meus sapatos sujos,
 traz seu colo para as estações
e junto a outras mais
 escrevem pelo chão o outono.

Escrevem tantas lembranças
de rostos lavados de verão
que delas ouço uma voz
me habitando...habitando
de seu profícuo desvão

ARCO SOLAR

teu sorriso me abriu um sol
que alado posto em minhas mãos
tingiu minhas roupas de calor.

teu olhar de labareda
me acendeu uma rosa no peito
e seu vermelho ilumina o ar úmido
que escorre do telhado

não sismo ser inverno
enquanto esse gosto de sol
do teu sorriso, por si só,  já ser
o sabor  intrínseco desse verão

FLOR E SER

uma flor  me flecha os olhos
com sua cor vibrante.

continuo a olhá-la admirado
como no fundo dos teus olhos olho

vejo a flor e ela me vê em seu silêncio!
eu vejo rio ir nunca chegar
– se do outro só tenho mesmo talvez -
Vejo tudo sigo sempre em frente
 de rente em mim para dentro
Nu antro
No cerne
Nu centro

NOTÍCIA FRIA

um lago largo nos separa
uma lua breve nos acompanha
um sino toca a despedida
lambe o rio uma brisa áspera

ouço mouco no som dos bambuzais
um som a reverberar
talvez ele seja em meu peito
talvez seja lá fora
esse rangido despedaçado
esse pedido desfeito
esse poema inacabado

HAICAIS CIRCUNSTANCIAIS

(Roni Moraes)
Poeira no canto
Um sopro de vento
Espanta o silêncio


Árvores desnudas
Pela janela
O outono quer permanecer


Um pássaro mergulhador
Entre vítima e predador
O vidro do rio se fere


Corre o rangido
Bambuzais ao vento
Uma orquestra na coxia


Gritos na madrugada
O sereno e o silêncio
Desafiam-se no nada


 
Paredes de sapê
Corpo e alma
Ásperos de poeira


Esteira e assoalho
O silêncio que dorme
Depois do trabalho







sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

BELVEDERE


                                                                                 (Roni Moraes)

Era aquele toque de nostalgia plena
Ao lembrar do rio Sena
Num banco de praça vendo pôr-se
O entardecer

Era mesmo eu comedido pequeno
Era mesmo eu
Era mesmo eu comedido pequeno
Era mesmo eu

Em pleno belvedere de um banco de praça
Vendo-me no fim do dia
Em pleno belvedere de um banco de praça
Vendo-me no fim do dia
Vendo-me no fim do dia
Vendo-me no fim do dia
Vendo-me...eh...eh...

Era música
Era música
Era música
Era música

Eram foles boreais
O abstrato na paisagem
A substância o escape
Nem ator nem personagem



FOTOS DO LANÇAMENTO

FOI SUCESSO O PRÉ-LANÇAMENTO DO CD DE RONI MORAES.


Eu quero que nesse momento saia de dentro de mim àquela canção... Com esse trecho, referente à música À Porta, Roni Moraes - acompanhado pelos músicos Pepeu e Otto Ramos - iniciou o show na casa do Chorinho, no dia 06 de novembro, envolvendo o público num clima de entusiasmo e vibração contagiante.  Sucesso é a palavra que simboliza a apresentação do Pré-lançamento do CD desse cantor amapaense.
 Com composições próprias e parcerias, suas músicas expressam sentimentos de alegria, esperança, sugerindo um olhar panorâmico diante da vida como indicado no titulo do disco Belvedere.  As apresentações iniciaram às 21h 30min, contando com participações especiais do grupo de Chorinho Instrumental do Ceará da Cuíca, Helder Brandão, Mini Box Lunar, Zé Miguel e muitos amigos que compareceram e prestigiaram o trabalho apresentado.
O cantor faz uma avaliação positiva do evento e realizará ainda esse ano mais uma apresentação. Seu objetivo é finalizar o CD até fevereiro do próximo ano e a partir dai realizar apresentações fora do Estado, criando condições para que outras pessoas possam conhecer o seu trabalho e ampliando o alcance das músicas e produções culturais do Estado do Amapá. Essa trajetória vem sendo realizada por cantores e compositores já reconhecidos de vários seguimentos musicais e grupos do Coletivo Palafita que procuram meios alternativos e apoios que possibilitem a divulgação de suas  produções.

PRÉ-LANÇAMENTO DE CD BELVERE

Macapá, 21 de Outubro de 2010.

Acontece no dia 06 de Novembro de 2010 o Pré-Lançamento do CD BELVEDERE, de Roni Moraes, na Casa de Chorinho, Pacoval. O artista amapaense e integrante do Coletivo Palafita, já vem trabalhando nesse CD há algum tempo. As músicas são de composição própria e de parcerias com artistas locais como Ronaldo Rodrigues, Jomar Guedes, Aog Rocha, Ricardo  Yraguani,  Herbert Emmanuel entre outros.
O título do disco “Belvedere” sugere uma idéia de visão panorâmica, um mirante que possibilita olhar além dos limites. As músicas são recheadas de sentimentos, valores e emoções que falam da vida, de percepções de humanidade e das relações estabelecidas entre si e com o ambiente.
Além de Roni Moraes, o show terá participações especiais como Sandro Sandim, Beto Oscar e Helder Brandão. As apresentações terão inicio ás 21horas. As mesas estão sendo vendidas a R$ 30,00, os valores arrecadados serão revertidos na gravação do CD.
A  Casa de Chorinho fica situado na rua Piauí, 971, Pacoval.
Roni Moraes – Email: roni_moraes11@hotmail.com