Então, era a primeira vez que a vi triste e certamente a última. Presa àquela avenida, diversas outras pessoas paravam e a olhavam, se sentindo como ela igualmente presas naquela imensa tristeza. Se entreolhavam buscando um motivo para seu sofrimento e um deles, de mochila nas costas começou a redigir com os lábios uma prece. Outro se preocupava com a possibilidade de assalto. Uma senhora de meia idade, tirava de dentro de sua bolsa uma câmera fotográfica para registrar aqueles sôfregos últimos momentos, aquele terrível sibilar arfante da morte. Os carros, no trânsito contínuo daquela avenida foram obrigados a reduzir a marcha e, alguns mais curiosos, saltavam e endossavam o caldo humano despejado em menos de vinte minutos naquela esquina, onde o semáforo não mais fazia sentido: Avenida Presidente Vargas com a General Rondom.
O fluxo parou. Moto taxistas, garis, enfermeiras, guardas municipais e até o secretário de Meio Ambiente que estava indo para o trabalho parou com o badalar dos sinos da catedral que, tocam ao meio dia. Todos choravam e os sinos, por mais de duas horas, tocaram incessantemente, como que a conclamar a população para um último adeus.
A cidade parou. Por que aquelas pessoas se lastimavam a desdita injustificada? Pensei em retaliá-los com sofrimento igual ao que se aproximava a cada momento. Foi nesse instante que o monótono badalar foi adentrando o peito daquela gente de tal maneira que começou a chover um choro contínuo. Todos choravam. Molhou o asfalto. Tentaram sem sucesso querer reanimá-la: aquela árvore balzaquiana, uma mangueira outrora bonita, vistosa, passa agora a ter suas raízes, tronco, folhas, flores e frutos igualmente condenados ao lento e indiferente braço da morte.
Por isso a cidade chorava?
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