Aquela tarde se desmanchava em pingos de chuva. Mangas maduras despencavam de alturas variadas e eu, deitado em uma rede num quarto pequeno e frio com a janela aberta para esse dormente momento, ouvia o ruído surdo das frutas caindo. Os periquitos haviam dado uma devassa geral passados alguns dias atrás, mas cresceram novas mangas e elas amadureciam, ficavam apetitosas para as bocas que as esperavam ou mesmo para apodrecerem nas calçadas. O barulho dos pneus na água que se formava nas ruas estava para os meus ouvidos como vários reco recos tocados a esmo dentro de uma pia cheia de água, sem ritmo, sem pulsação, mas que contínuo e irrenitente. O cheiro do ar estava impregnado de musgo, rosas, goiabas se decompondo e samambaias pois o meu quarto ficava nos fundo do hotel Santo Antonio na Coriolano Jucá e beirava um muro baixo de jardim cheio de xaxins de samambaias e pés de goiabas. Ao lado do hotel se materializava um edifício residencial que os trabalhadores ainda estavam nas bases de sustentação da obra. Brevemente iria suplantar em tamanho como em qualidade minha humilde hospedagem.
Tive um ímpeto de pular da rede. Senti na pele um calafrio pela nuca que me fez tirar o samba canção para meter a cara na rua. Ela, a rua, me pareceu naquele instante áspera com suas folhas e mangas no pé das árvores, empapada pela lama acumulada nas marginais, mas embriagadamente envolvida em uma chuva fina que, fui desmedidamente, apertando os passos para o meu automóvel. Haviam também alguns jambos mergulhados em poças de água e outros amontoados na calçada.
Dentro dele, retirei do bolso da bermuda caqui um lenço xadrez e enxuguei os pingos d’água do rosto e dos braços. Liguei o ar e fiquei um pouco pensando em como chegar lá e porque de tanto desespero para chegar a um determinado lugar, não lembrava nada assim ocorrido comigo antes.
Mas fui. Pequei a Tiradentes e dobrei na Presidente Vargas. Fui direto e dobrei na Marcelo Cândia e liguei o pisca sinalizando para a esquerda. Enquanto procurava meu pen drive no porta luvas atravessei a Mendonça Furtado, a Almirante Barroso, a Cora de Carvalho, a Padre Júlio, depois a Mendonça Júnior e dobrei para a direita na Salgado Filho. Com o pen drive na mão coloquei-o na entrada USB do som e, naquele finalzinho de tarde nublada, vi desenhar-se contra um céu cor de chumbo e ventilado o edifício Turmalina se sobressaindo as casas do bairro. Saltei do carro e sai disparado para a recepção e, pelo interfone falei com o porteiro. Ele não estava entendendo o meu desespero e, por isso, me refiz voltando a explicar-lhe com calma, apesar da chuvinha fina que caia: “sou irmão da senhora do apartamento 101, meu nome é Otávio Solto Neto e...” O portão abriu. Entrei correndo e acenei com a cabeça para o senhor na portaria como que a agradecê-lo e ele me retribuiu com um olhar que deduzi ser familiar, apesar da minha pressa. Subi as escadas pulando de dois em dois degraus. Esbarrei com um casal que vinha conversando animadamente e se assustaram com minha passagem. Cheguei ao quarto andar e me deparei com a porta de entrada do apartamento da minha Irmã. Bati na porta. Nenhum sinal. Bati novamente. Nada. Era obvio que, se não estivesse ninguém naquele apartamento ao menos o seu cachorrinho alardearia o barulho na porta. Depois de mais de cinco minutos alguém abriu sonambulante depois de olhar pelo olho mágico. “Ela viajou, falou baixo entre bocejos um rapaz de mais ou menos vinte e cinco anos. Acabei de deixá-la no aeroporto de Macapá, o vôo sai as dezoito. Deixou isto”. Estendeu a mão e me entregou um envelope de papel pardo grampeado. Peguei com as mãos trêmulas e me despedi em silêncio.
Na rua coloquei o envelope debaixo da camisa para que aquela tarde misteriosa não o molhasse e entrei no carro. Sentei. Lá pude abrir com calma. Olhei para o prédio no mesmo ângulo de visão de antes, liguei o som para ouvir no mais alto volume. Foi logo tocando um clássico de Johnny Rivers Do You Wanna Dance quando me machuquei ao retirar os grampos com os dedos. O sangue borrou levemente a carta que me pus a ler avidamente: “Olá querido Otávio, sem família além de você aqui nesta cidade meus dias foram restritos ao trabalho na Fazenda e a minha religião que abracei. Eu tinha um casamento de vinte anos e me vejo agora sem ele e desesperada. Daquela conversa que tivemos guardo comigo as tuas palavras, mas de nada importa agora, porque no final das contas a gente acaba fazendo o que nosso coração manda mesmo. Por isso estou partindo para Amsterdã atrás dele e tentarei retomar tudo. Sei da sua opinião sobre isso, que eu deixasse as coisas como estão e que de nada adiantaria correr atrás de algo que já não temos. Sinto que já o perdi, sim, mas devo tentar. Até breve”.
Olhei novamente para o prédio, não com o mesmo olhar de minutos atrás no sobressalto, mas de cansaço tangível, porém frívolo. Havia entendido o motivo que me jogou da rede e isso me pesou nos ombros. Deixei o pisca alerta e o limpador ligado quando sai no frenesi e eles continuavam a funcionar como que sincronizados. O ar que estava abafado e tenso antes dava lugar a uma atmosfera surda e amordaçada, apenas o som de Johnny Rivers dizia:
Do you wanna dance and hold my hand?
Tell me that I’m your man
Baby, do you wanna dance?